Em pouco mais de um mês, revoltas que começaram em liceus da periferia de Paris e num despejo em Madri se somaram numa onda de protestos simultâneos por boa parte da Europa. No sábado, 17 de outubro de 2026, França, Itália, Bélgica e Portugal tiveram marchas no mesmo dia, com centenas de milhares de pessoas nas ruas. Espanha e Albânia viviam suas próprias crises ao mesmo tempo.
Os movimentos não têm comando comum nem coordenação europeia. O que os une é um conjunto de queixas que se repete de país em país: custo de vida, aluguéis impagáveis, escolas e universidades sem recursos e orçamentos de austeridade.
Na linha de frente estão jovens, muitos deles menores de idade. Os sindicatos chegaram depois e agora tentam transformar a revolta em greves gerais: França, Espanha e Itália já marcaram datas em novembro, e a Bélgica pode se juntar a elas.
Setembro: o estopim nos liceus franceses
A onda começou na segunda quinzena de setembro, em liceus da periferia de Paris, nos departamentos de Val-de-Marne e Seine-Saint-Denis. Os alunos bloquearam a entrada contra a falta de professores, as turmas lotadas e os prédios degradados. Em 1º de outubro, os universitários aderiram, e 29 universidades chegaram a ficar parcialmente bloqueadas, segundo a Union étudiante.
Os bloqueios se espalharam para Bordeaux, Rennes, Nantes, Lyon, Lille e Marselha. A pauta dos jovens é concreta: turmas menores, substituição de professores ausentes, reforma dos prédios, mais enfermeiros e psicólogos e o fim da pressão do Parcoursup, a plataforma de acesso ao ensino superior.
O movimento cresceu quando encontrou o orçamento. O governo do primeiro-ministro Sébastien Lecornu propôs para 2027 cerca de €54 bilhões em cortes e impostos. O pacote congela os salários do funcionalismo e a maioria das aposentadorias, num país com déficit de 5,4% do PIB.
Em 29 de setembro, o funcionalismo fez greve, com cerca de 300 mil pessoas nas ruas. Em 6 de outubro, o primeiro grande dia nacional reuniu 256 mil pessoas pelo Ministério do Interior e 450 mil pelas entidades, com 891 liceus perturbados. A repressão virou tema por si só: em 2 de outubro, o ministro da Justiça falava em cerca de 2.000 detidos, 90% deles menores.
O pano de fundo é de impasse político. Desde as eleições de 2024, nenhum bloco tem maioria na Assembleia, e a eleição presidencial está marcada para abril de 2027.
Espanha: do despejo de Maricarmen à queda dos decretos
Na Espanha, o estopim teve nome e rosto. Em 23 de setembro, María del Carmen Abascal, a Maricarmen, de 87 anos, foi despejada do apartamento no bairro de Retiro, em Madri, onde vivia havia mais de 70 anos. Ela pagava €500 de aluguel; a proprietária pedia €2.650.
As imagens dela sendo retirada de maca correram o país. Em 26 de setembro, a primeira grande marcha, convocada pelo Sindicato de Inquilinas, reuniu em Madri 25 mil pessoas segundo o governo e 300 mil segundo os organizadores. Na mesma noite nasceu o acampamento da Puerta del Sol, que em quatro dias passava de 1.200 barracas e inspirou outros, como o da Plaza Catalunya, em Barcelona.
Em 2 de outubro, o Congresso derrubou os decretos de moradia do governo de Pedro Sánchez, com votos contrários de PP, Vox e Junts. No dia seguinte, houve marchas em mais de 50 cidades, com cerca de 70 mil pessoas em Madri pelos números oficiais. Em 5 de outubro, Sánchez convocou eleições gerais antecipadas para 29 de novembro, e dois dias depois Maricarmen morreu no hospital, o que levou o lema “Ni una Maricarmen más” de volta às ruas.
Os números explicam a revolta. O aluguel médio quase dobrou em dez anos, de €8,20 para €15,10 o metro quadrado, e a moradia pública é menos de 2% do total de imóveis, contra 8% na média da UE. Segundo o CIS, 86,9% dos espanhóis estão muito ou bastante preocupados com a moradia.
O contágio: Bélgica, Portugal e Itália
Bélgica. A partir de 1º de outubro, secundaristas de Liège, Charleroi e Mons saíram às ruas, alguns em contato com os franceses. Protestavam contra os cortes na educação francófona, que aumentam a carga dos professores de 20 para 22 horas-aula e elevam a taxa universitária de €835 para €1.194. Em Liège, foram mais de 100 detidos, e o prefeito proibiu aglomerações de mais de três pessoas.
Em paralelo, os sindicatos já tinham marcado protesto contra o plano do governo De Wever de economizar €10 bilhões até 2029. Em 9 de outubro, cerca de 30 mil pessoas marcharam em Bruxelas, segundo a polícia, e em 12 de outubro uma greve dos serviços públicos afetou trens, ônibus e hospitais.
Portugal. Em Portugal, a crise é de moradia e salário: os preços dos imóveis mais que dobraram desde 2017. Um acampamento pela habitação surgiu no Porto por volta de 10 de outubro. Na madrugada de 15 de outubro, a polícia o desmontou à força, deixando cerca de 37 feridos, e a Inspeção-Geral da Administração Interna (IGAI) abriu inquérito.
Itália. Estudantes ocuparam escolas em Turim e Roma desde 5 de outubro com o lema “façamos como na França”. A UDU, entidade de universitários, acampou em frente ao Parlamento em 12 de outubro por moradia estudantil. Em 16 de outubro, o “No Meloni Day” estudantil reuniu 400 mil pessoas, segundo os organizadores, sob o lema “mais salas de aula, menos bombas”.
No mesmo dia, caminhoneiros da Sicília pararam contra o diesel acima de €2,40 o litro. O protesto se espalhou pelo sul e deixou sem combustível metade dos postos da rede Enilive na Puglia.
Albânia: dos flamingos a Tirana em chamas
Na Albânia, a revolta tem raiz mais antiga e mais política. Desde 23 de maio, o movimento Flamingo protesta contra um projeto turístico de cerca de €1,4 bilhão na ilha de Sazan e na laguna de Zvërnec, com Jared Kushner, genro de Donald Trump, como investidor principal. O nome vem dos flamingos da laguna de Narta, uma área protegida, e em junho o movimento chegou a reunir mais de 100 mil pessoas em Tirana.
Em 13 de outubro, os estudantes assumiram a linha de frente. A pauta juntou mensalidades caras, universidades precárias, falta de emprego e corrupção, e a exigência central virou a renúncia do primeiro-ministro Edi Rama, no poder desde 2013.
Nos dias seguintes, Tirana viveu alguns dos confrontos mais violentos de toda a onda. Foram incendiados ou atacados o Ministério da Educação, o gabinete do premiê, o Tribunal Constitucional, o Banco da Albânia e a sede do Partido Socialista. Os atos se espalharam para Elbasan, Shkodër, Korçë, Vlorë e Durrës, e até 18 de outubro eram 272 feridos, 169 deles policiais.
Rama se recusa a renunciar, diz que o país “teve eleições, não uma revolução” e culpa “mãos estrangeiras”. Os estudantes, sem porta-vozes conhecidos, recusam diálogo e afastaram até os deputados da oposição que tentaram se juntar aos atos. A OSCE se ofereceu para mediar.
17 de outubro: o sábado que incendiou a Europa
O 17 de outubro foi o dia em que as crises nacionais pareceram uma só. Na França, estudantes, sindicatos e coletes amarelos marcharam juntos contra o custo de vida. O Ministério do Interior contou 550 mil pessoas em 110 cortejos; a UNEF, entidade estudantil, falou em 800 mil.
A maior parte dos atos foi pacífica, mas à noite a violência tomou conta. Mais de 300 lojas foram danificadas ou saqueadas em Marselha, a prefeitura histórica de Limoges ardeu e o posto de turismo de Lyon foi incendiado. O balanço oficial registrou 2.397 detidos, 997 policiais e gendarmes feridos, cerca de 60 edifícios queimados e um morto em Paris, por parada cardíaca, caso que está sob investigação.
Na Itália, o “Italia in piazza”, convocado pelo TikTok e sem partido nem sindicato, terminou em confrontos e saques na Piazza del Duomo, em Milão. Houve tumultos também em Bolonha, Turim, Bérgamo e Brescia. Até o dia 19, 271 pessoas tinham sido levadas à delegacia, cerca de 80% delas menores.
No mesmo dia, a CGIL levou mais de 100 mil pessoas a Roma, segundo o sindicato, numa marcha pacífica. Em Bruxelas, a polícia dispersou estudantes com gás e canhão d’água. Em Portugal, a CGTP marchou em Lisboa, no Porto e em Coimbra, e ao fim da marcha surgiu um acampamento no Rossio que no dia 19 já tinha cerca de 100 barracas.
Quem está nas ruas
A onda tem três camadas de atores, que nem sempre andam juntas.
Os jovens, que puxam o movimento. Na França, as entidades estudantis USL, Union étudiante, UNEF e FAGE e a Coordination nationale lycéenne, que diz representar 27 cidades, convocam os atos e denunciam a violência policial. Na Espanha, o Sindicato de Estudiantes quer parar escolas e universidades; na Bélgica, a FEF fala em “elitização” do ensino; na Itália, a Rete degli Studenti e a UDU declararam mobilização permanente. Na Albânia, o movimento não tem nem nome de entidade nem porta-voz.
Os sindicatos, que chegaram depois. Na França, a intersindical (CFDT, CGT, FO, UNSA, FSU) apoia os jovens “respeitando sua independência” e marcou greve para 5 de novembro. A líder da CGT, Sophie Binet, condenou os saques, mas culpou “dez anos de macronismo”; a CFDT chamou o movimento de “histórico, que não pode ser reduzido à violência”.
Na Espanha, CCOO e UGT convocaram greve geral pela moradia para 11 de novembro, com adesão de CGT, CNT e das centrais regionais; as associações patronais chamaram a greve de “inadmissível”. Na Itália, a CGIL marcou greve geral para 20 de novembro, e a USB faz a sua em 30 de outubro, contra a guerra e o rearmamento. Na Bélgica, a FGTB tem mandato para greve geral, e em Portugal a CGTP prefere marchas a greve geral.
Os movimentos sem organização. Parte da força vem de fora das estruturas tradicionais: o Sindicato de Inquilinas e seus acampamentos na Espanha, o “Italia in piazza” nascido no TikTok, os coletes amarelos na França e os movimentos de habitação em Portugal. É nessa franja que surgem tanto a energia quanto a violência que os sindicatos tentam conter.
A resposta dos governos
Quase todos os governos responderam primeiro com ordem pública e só depois com concessões parciais.
França. Macron prometeu ser “implacável” com os saqueadores e autorizou os prefeitos a proibir aglomerações. Cidades como Paris, Marselha, Bordeaux, Lille, Nice e Lyon adotaram toques de recolher localizados. O ministro da Justiça, Gérald Darmanin, quer responsabilizar civilmente os pais dos menores, e o ministro do Interior, Laurent Nuñez, chegou a oferecer a demissão, recusada por Macron.
Ao mesmo tempo, o governo acenou com diálogo. Prometeu cerca de 3.000 professores substitutos para as escolas mais carentes e um plano até o fim de outubro, e Macron convocou jovens, sindicatos e patrões. A Assembleia abriu uma comissão de inquérito sobre a violência de 17 de outubro e a atuação policial.
Itália. Giorgia Meloni resumiu sua posição numa frase: “Manifestar é um direito. Incendiar nossas cidades não é.” O governo levou um decreto contra bloqueios de estrada ao Conselho de Ministros e mandou mais 500 militares a Milão. O vice-premiê Matteo Salvini quer prisão preventiva para menores, mas prometeu €430 milhões aos caminhoneiros.
Espanha e Portugal. Sánchez, derrotado no Parlamento, levou a questão às urnas, com eleições em 29 de novembro. Em Portugal, o governo de Luís Montenegro disse que “não cede a gritos que vêm da rua”.
Albânia. Edi Rama traçou uma “linha vermelha” contra a violência e aceita discutir o custo da educação, mas não a própria renúncia. A Comissão Europeia pediu resposta proporcional e lembrou que o país é candidato à UE.
O que vem pela frente
A onda entra em novembro com uma série de greves gerais em sequência. França, Espanha e Itália já têm datas marcadas, e a Bélgica pode se juntar a elas.
| Data | País | Convocação |
|---|---|---|
| 30 out. | Itália | Greve da USB, contra a guerra e o rearmamento |
| 5 nov. | França | Greve da intersindical (CFDT, CGT, FO, UNSA, FSU) |
| 9 nov. | Bélgica | A FGTB decide se convoca a greve geral |
| 11 nov. | Espanha | Greve geral pela moradia (CCOO e UGT, com CGT, CNT e centrais regionais) |
| 20 nov. | Itália | Greve geral da CGIL |
As datas vêm de convocações de sindicatos e entidades estudantis. A greve geral belga depende de decisão da FGTB em 9 de novembro.
Três perguntas definem o próximo capítulo. A primeira é se os sindicatos conseguem transformar a revolta juvenil em greves de massa sem que a violência das franjas domine a narrativa. A segunda é se os orçamentos de austeridade sobrevivem: a Bélgica precisa fechar o seu até o fim de outubro, e o da França segue em debate num Parlamento sem maioria. A terceira é se as urnas canalizam o descontentamento: a Espanha vota em 29 de novembro, e França, Itália e Polônia têm eleições nos próximos 12 meses.
Há também sinais de expansão. Estudantes gregos acamparam na praça Syntagma, em Atenas, pedindo moradia estudantil; universitários irlandeses marcharam em Dublin; e na Alemanha circulam chamados online para ações nacionais. Ainda não há, porém, nenhuma coordenação europeia: a Confederação Europeia de Sindicatos e a União Europeia de Estudantes não se pronunciaram.
Fontes
Os números de participantes e detidos variam entre governos, organizadores e veículos. O artigo usa os dados oficiais e indica a contagem dos organizadores quando ela é relevante.
- França: Al Jazeera, Euronews, Paris Match, Pandore (balanço de 17/10), CFDT, Boursorama (CGT), L’Étudiant, Carolina Political Review, AP via WHIO
- Espanha: BBC Mundo via Teletica, Ahram/AP, Euronews, Diario de León, Artículo14, Infobae, Sindicato de Estudiantes
- Portugal: CGTP, RTP, 24Notícias, DNoticias
- Bélgica: Al Jazeera, VRT, RTBF, BX1, La Libre
- Itália: ANSA, Il Post, Sky TG24, LaPresse (CGIL), USB, Fanpage
- Albânia: Al Jazeera, Euronews, OCCRP, Exit News
- Panorama europeu: Al Jazeera (17/10), Axios, Greek Reporter
Cronologias usadas na revisão de 20/10: Wikipedia: 2026 French student protests, Wikipedia: 2026 Spanish housing protests, Wikipedia: Flamingo Revolution (cópia arquivada), Euronews: acampamento de Sol.
